Celso Álvarez Cáccamo  • Linguística Geral • Depto. de Galego-Português, Francês e Linguística Faculdade de FilologiaUniversidade da Corunha • 15071 Corunha • Galiza • Tel. +34 981 167000 ext. 1888 • Fax +34 981 167151 • lxalvarz@udc.es
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Xosé María
Álvarez Blázquez

 

Para uma sociolinguística da fala e o poder na Galiza

Celso Álvarez Cáccamo
[Julho 1987]
Inédito

1. Formular-se se existe, pode ou deve existir uma «sociolinguística galega» poderia soar, de primeira impressão, a uma dessas desnecessárias perguntas metateóricas, quase metafísicas, a que já estamos demasiado afeitos. Não obstante, no nosso país reúnem-se, com efeito, certas condições em princípio favoráveis para o desenvolvimento dum paradigma autóctone de estudo da função social da linguagem, das línguas e da fala. Tentarei explicar porquê:

     (1) Em primeiro lugar, a nossa comunidade de fala oferece-nos um campo de dados, de diversos níveis, imelhorável para afundar no conhecimento da diversidade da fala e a sua relação com «o social». A nossa riqueza dialectal e sociolectal riqueza que em situações de conflito sociolinguístico pode supor verdadeiros problemas para o planejador da língua, e, se não, veja-se também os casos de Euskadi, Ocitánia ou a diversa Astúrias bable fornece a matéria prima para estudos dialectológicos que descrevam o continuum galego-português que se estende do Algarve a Ortigueira, ou, doutra perspectiva, para estudos dentro do paradigma da teoria da variação linguística(1).

     Ademais, as mudanças sociolinguísticas em progresso que configuram o actual processo de «normalização» do galego constituem uma fonte de dados de valor incalculável e uma oportunidade singular para apreciar deslocamentos e assimilações linguísticas de grupos sociais num contexto de mudança política, ideológica e sócio-económica relativamente rápida e, indubitavelmente, sem precedentes na história social da nossa língua. Por exemplo, um estudo quantitativo transversal, centrado na distribuição do galego e o espanhol ao longo dos diversos grupos sociais e âmbitos de uso, poderia deitar valiosos dados sobre o duplo processo de assimilação dos galego-falantes ao espanhol e vice-versa, e sobre o previsível futuro do galego.

     Por último, certos fenómenos sociolectais como o sesseio e a gheada podem ser estudados, desde a óptica da sociolinguística da interacção, já não como traços da estrutura da língua, mas como marcas discursivas de identificação grupal que jogam um papel fundamental na comunicação imediata. Como tais, estes traços devem ser estudados, junto a uma ampla série de recursos discursivos prosódia, procedimentos retóricos, léxico, etc. como peças-chave no desenvolvimento da conversa e na geração e mantimento de relações de poder social através da fala(2).

     (2) Ao lado desta provisão de dados, existe no nosso país uma apreciável tradição de interesse sem dúvida gerado polas condições históricas de dominação do galego sobre a chamada «dimensão social» da língua (que outra «dimensão» que a social pode ter a língua, pergunto-me eu!). Desde os primeiros debates de finais do s. XIX sobre a normativização nas páginas da revista Galicia. Revista Regional, o discurso sociolinguístico galego alimentou-se, com maior ou menor fortuna e duma maneira mais ou menos mediada polo nosso afastamento secular dos centros de poder cultural, dos contributos de diversas correntes do pensamento ocidental moderno. Como disciplina sistemática, a nossa incipiente sociolinguística nutre-se, assim, de três fontes básicas: (a) O Romantismo, que na Galiza tivo a sua (seródia) manifestação mais evidente no discurso nacionalista da língua, encetado polo grupo intelectual Nós com a sua identificação língua-povo-nação, que tem pervivido até aos nossos dias em indemonstráveis tópicos (quer dizer, figuras retóricas correntes) como «A língua é a expressão do carácter dum povo», «A língua condiciona o pensamento e a forma de 'ver' as cousas», etc. (b) O marxismo, incorporado a partir dos anos 60 à análise do conflito linguístico na Galiza em conceitos como «colonização linguística», «dominação», etc.(3). E (c) A sociolinguística quantitativa e o funcionalismo americanos, que materialmente invadiram o nosso mercado de ideias com conceitos referidos a funções e atitudes linguísticas como os de «diglossia» ou «lealdade linguística»: que o termo «diglossia», originariamente um tecnicismo de especialistas, tenha atingido tal espalhamento entre nós é sintoma do interesse que o tema sociolinguístico esperta e ainda espertará entre as elites ilustradas das classes meias; mas, se se me permitir um breve inciso, é ademais clara mostra de como o discurso científico conforma cada vez mais as nossas representações da realidade na sociedade moderna.

     Temos, pois, uma matéria prima e uns mínimos princípios teóricos sobre o que operarmos. Que nos falta, logo? O que nos falta é à parte, por suposto, do necessário aparelho académico e institucional uma sistematicidade e trabalho conjunto capazes de recolherem energias sem dúvida existentes, espalhadas pola nossa «sociolinguística de café», para sentar escola de pensamento sociolinguístico no nosso país. Para isto, não precisamos obrigadamente nem dum Vallverdú, nem dum Aracil, nem, sobretudo, de mais Fishmans expertos na quantificação de numerosas variáveis provavelmente irrelevantes. Do que precisamos é duma olhada lúcida perante os factos sociolinguísticos, baseada em certos princípios fundamentais dos quais temos avondosa e, às vezes, mesmo dolorosa experiência: que a linguagem, manifestada na fala, é um eficaz instrumento de dominação social, e que a hierarquização linguística (a especialização funcional de variedades e a distribuição desigual do seu prestígio social) é sempre uma função da estratificação social. Os termos concretos desta difusa função são os que temos de descobrir na nossa realidade, tentando extrair conclusões gerais, aplicáveis universalmente, sobre como operam as práticas linguísticas (a fala) na geração, mantimento e acesso ao poder social. Trata-se, pois, de fazer sociolinguística do poder (ou sociologia da fala e o poder), mas trata-se sobretudo de fazê-la aqui e, portanto, de fazê-la galega.

 

2. Qual seria, logo, a tarefa específica do sociolinguista da fala e o poder? Para começar com uma comparança, o sociolinguista há-de ser, numa primeira fase, como um fotógrafo hiperrealista encarregado de reproduzir ao mesmo tempo e com a mesma nitidez de detalhe tanto um fundo de paisagem como um primeiro plano mui próximo, sem se valer do truque de duas lentes diferentes duas focagens ou instrumentos de análise, mas usando uma única lente complexa que capte e reproduza todos os planos, inclusive os intermédios, com igual claridade. Imaginemos, seguindo com a analogia, uma floresta formada por dous tipos distintos de árvores (línguas) que se estende até ao horizonte, e mais uma série de árvores dessa floresta isoladas num primeiro plano. Pois bem: trata-se de conhecer e representar simultaneamente a floresta da situação social de contacto de línguas e as árvores ou actos de fala individuais que compõem essa situação. É desnecessário clarejar que, a diferença desse hipotético fotógrafo, o sociolinguista não só deve reproduzir a realidade da fala, mas também revelá-la e interpretá-la. Mas não se pode, já não interpretar, senão mesmo descrever essa floresta da dominação linguística sem conhecer em detalhe que e como são as suas árvores ou unidades comunicativas mínimas, para que servem, que função ecológica (social) cumprem. Neste sentido, encontraríamos na nossa situação árvores-actos de fala de um ou outro tipo (galegas e espanholas), mas ao próprio tempo encontraríamos enunciados híbridos e mesmo espécies novas ou «castrapos» que não encaixariam exactamente em nenhuma das categorias originárias. Como ao botânico, ao dialectólogo e linguista estrutural corresponderia-lhes meramente descrever estas variedades. Mas ao sociolinguista cumpre-lhe desvelar porque certas variedades se desenvolvem socialmente mais ou canalizam uma maior força ilocutória (apelativa, interrogativa) do que outras na conversa, como repercutem na interacção verbal as escolhas do falante de inserir, num momento dado da conversa, enunciados de um tipo ou de outro, e como, devido a estas múltiplas preferências dos falantes para «plantar» árvores de um ou outro tipo, mudam com o tempo as florestas, as situações de conflito linguístico.

     Como vemos, do que estamos a falar é de dous níveis básicos de manifestação dos factos sociolinguísticos (ou sociais em geral), níveis em que deveremos estudar as diversas funções da fala como fonte de criação e mantimento do poder social: (1) o nível macro-social (o da sociedade no seu conjunto ou dos grupos sociais amplos), e (2) o nível micro-social ou da interacção imediata, face a face. Fishman apontou, atinadamente, que os deslocamentos linguísticos (no nosso caso, o duplo processo de urbanização do galego e ruralização do espanhol) são resultado da acumulação progressiva de múltiplas mudanças nas normas de escolha de língua em acontecimentos de fala individuais(4). Precisamente, a tarefa de relacionar ambos os níveis tem-se revelado como um dos objectivos mais importantes (e mais difíceis) da sociolinguística. Infelizmente, as propostas teóricas sobre como abordar multidimensionalmente o estudo dos processos sociolinguísticos por exemplo, a própria de Fishman(5) não passaram de meras declarações de princípios. E isto é assim, em parte, porque as relações entre ambos níveis não são nem transparentes nem biunívocas, e porque as generalizações sobre um destes níveis não são necessariamente aplicáveis ao outro.

 

3. Tentemos de concretar um pouco mais no caso galego. Se afirmamos que a língua e a fala geram poder social, que criar língua é criar poder, o labor do sociolinguista há-de ser o de descrever e interpretar como o actual espalhamento público do galego, uma língua até há pouco totalmente esquecida e marginada polos seus próprios neo-falantes, actua como mecanismo de ascenso de status sócio-económico e de reforçamento do prestígio social das elites de poder. De acordo com os dous âmbitos apontados antes (o macro-social e o micro-comunicativo), deveremos assim considerar o papel da fala na geração, por uma parte, do poder e controlo social que, como di L. Mair, «abrange toda a gama de pressões sociais dirigidas a fazer que a gente cumpra os seus roles de acordo [com as] expectativas [sociais]»(6); e, por outra, do poder e controlo interaccional que, como diria eu, seria a capacidade do sujeito para incidir activamente sobre as relações de rol entre ele e outros participantes da interacção mediante o manejo hábil dos diversos recursos discursivos incluindo, claro está, a escolha de língua e o seu uso.

     Nas próximas páginas considerarei, precisamente, o papel do uso público do galego como fonte de poder social. Embora seja relativamente fácil observar como uma assimilação utilitária ao galego por parte de certos neo-falantes actua como mecanismo de ascenso de status social, na consecução dum posto de trabalho, como burocrata ou técnico da língua, etc., resulta, porém, menos fácil interpretar porque um uso simbólico do galego em público (por parte de espanhol-dominantes ou de galego-dominantes) pode reforçar o prestígio social do falante, tanto no âmbito macro-social como num momento dado de interacção. Porém, o que me interessa destacar é que, na base deste reforçamento de prestígio e de consecução de controlo social ou interaccional do usuário de galego, reside um único mecanismo básico: que, ao utilizar o galego em contextos anteriormente reservados para o espanhol, o falante está a apelar a e a apoiar-se em um novo quadro dominante de referência para a interpretação pública da sua conduta sócio-linguística, novo quadro de referência que está intimamente relacionado com as recentes mudanças nas estruturas político-administrativas e na ideologia política do país.

 

4. Este novo quadro de referência não é senão o ré-emergente discurso nacionalista da língua. Aqueles argumentos do tipo «La lengua ha sido siempre la compañera del Imperio», «Hable español, no sea bárbaro», etc., não são mais do que grosseiras manifestações das componendas entre poder político e fala (que têm, por outra parte, um carácter universal e se dão sempre nalgum ponto da história sociolinguística dum povo soberano). No seu conteúdo, porém, semelhantes argumentos subjazem a fórmulas de validade jurídica do tipo «O galego é a língua própria da Galiza», «El español o castellano es la lengua de España y todos tienen el derecho y el deber de conocerla», assim como no discurso público e interno de partidos políticos, frentes culturais, etc.(7). Trata-se, em todos os casos, de manipular o valor simbólico da fala como componente da conduta social, explicitando o seu teórico papel no desenvolvimento duma nova sociedade e duma nova consciência colectiva. Não deve, portanto, considerar-se um paradoxo, mas um resultado lógico da nossa história de classes, o facto de serem a burguesia tradicionalmente espanholista dominante no aparelho político-administrativo galego e as nossas elites de poder cultural as encarregadas de dar corpo a esse discurso nacionalista da língua, historicamente 'necessário', uma vez que os seus próprios interesses determinaram, com a conivência da burguesia central, a descentralização do aparelho de estado no triste monstro do «Estado das Autonomias». A própria mensagem institucional do presidente do governo galego com motivo do Dia das Letras Galegas de 1987, onde afirma que «a nossa língua é (...) a mais importante componente do caudal comum e universal da sociedade galega», e mais numa jornada «de afirmação nacional de Galiza»(8), é uma curiosa mostra deste discurso, de herança romântica e de manifesta utilidade política, que seria improvável de escutar dos lábios de líderes da direita espanhola em Euskadi ou Catalunha.

     Neste âmbito macro-social, o prestígio adquirido do neo-falante de galego sustenta-se na avaliação, por parte dos cidadãos, da sua conduta linguística em quanto conduta social. Originam-se e estendem-se, assim, novas normas sociolinguísticas (novas práticas de emprego público do galego), de maneira que, por exemplo, nenhum candidato ou líder político galego ousaria empregar publicamente o espanhol sem polo menos ser consciente de que isto poderia supor uma distinta estimação colectiva da sua figura pública e, talvez, uma míngua dos seus resultados eleitorais ou apóio popular. Pois, enquanto para muitos um uso majoritário do espanhol ainda não exclui a sua identificação social com «o galego», um uso majoritário do galego definitivamente apresenta ao falante perante o corpo social como «galego»: é dizer, como membro teoricamente solidário dum grupo teoricamente vinculado, entre outras cousas, pola prática social comum de empregar, já não «uma das nossas línguas», senão «a nossa língua». Assim, o uso do galego está começando a se constituir, nos contextos citados, em termo não marcado do contraste galego/espanhol ou forma dominante de conduta, enquanto o uso do espanhol começa agora a ser o termo marcado quer dizer, a forma de conduta sobre a qual há uma consciência de que difere das normas sociais dominantes.

     Enfim, para alguns sectores paleo-falantes da intelligentsia galeguista com uma longa história pessoal de prática coerente em defesa do galego, o actual e por vezes esquizóide processo de galeguização pública do país pode constituir uma fonte de reforçamento dum prestígio anteriormente adquirido entre círculos de elite. Por uma banda, tais minorias foram pioneiras em práticas linguísticas agora mais amplamente reconhecidas e estimadas no nível social, e além disso possuem um domínio dos recursos da fala como veículo de contacto social que os neo-falantes não iniciados ainda estão a adquirir. Por outra, a validade, propriedade e importância histórica do seu discurso a prol da dignificação do galego estão-se a ver confirmadas cada vez mais polas mudanças sociolinguísticas em progresso. Para estas elites criadoras e portadoras de poder cultural, o argumento que fundamenta o seu crescente prestígio é simples: «Nós contribuímos decisivamente ao actual estado de cousas: a História, pouco a pouco, está a nos dar a razão».

 

5. Mais difícil é, sem dúvida, estudar o uso do galego na comunicação imediata, como estratégia discursiva que pode incidir sobre as relações de rol entre os participantes e/ou afectar o controlo da interacção por parte dum(s) deles. O sociolinguista deve aqui descer a uma análise polo miúdo do discurso falado, e, concretamente, das implicações da escolha de código linguístico e a sua alternância com outro(s) para o desenvolvimento da interacção. Mas de novo erraríamos se acreditássemos que as formas em que articula o poder da fala neste micro-nível são comparáveis ou extrapoláveis ao nível macro-social. Por exemplo, a manipulação do valor simbólico do galego público por parte das elites neo-falantes nem sempre se corresponde com um maior conhecimento do galego a respeito do espanhol, ou com o seu uso activo nos domínios privados. Mas a rentabilidade comunicativa (e política) desta «assimilação simbólica» ao galego para estas elites supera amplamente o prejuízo de terem de empregar uma segunda língua em que às vezes não se sentiriam tão comodamente instalados no nível expressivo ou comunicativo como em espanhol. Sobre a transmissão de conteúdos, prima a transmissão de intenções comunicativas e de atitudes; reforça-se a dimensão apelativa da fala sobre a referencial, e, por este processo de apelação a valores colectivos, pode o falante reforçar a própria validade dos seus argumentos, e, consequentemente, o seu rol activo no controlo da interacção.

     Neste sentido, o galego poderia estar se constituindo em código de autoridade em certos contextos. O mesmo facto de que o presidente do governo autonómico utilize o galego publicamente sugere que, quando o referente é a Galiza, a escolha, como quadro de referência, duma língua legalmente definida como «própria» não deveria minguar a possível força apelativa ou expressiva da mensagem. O sociolinguista-etnógrafo da fala deve assim mesmo perguntar-se que significação social tem o facto (observado pessoalmente) de que, num pleno público do concelho de Vigo, o alcaide recorra ao galego, no meio dum debate em espanhol, para fazer calar a um público evidentemente inquieto pola marcha dos acontecimentos, mediante uma longa e ameaçante apelação à responsabilidade citadina e aos deveres democráticos que mantivo os ouvintes em absoluto silêncio de escolares intimidados.

     Outro caso de sumo interesse para o sociolinguista porque mostra que a escolha de variedades linguísticas tem a faculdade de afectar substancialmente as relações de rol entre os participantes dum acontecimento comunicativo é o do doutor espanhol-falante ou qualquer outro profissional de reconhecido prestígio social que, no terreno interaccional da sua própria consulta, faz evidentes esforços por se acomodar(9) linguisticamente ao seu interlocutor-paciente de classe meia, falante de galego comum (e a precisão é importante), que poderia perfeitamente expressar-se em espanhol. Ainda que, por suposto, o doutor segue a ser 'doutor' e o paciente 'paciente' na interacção, este acto de acomodação à língua teoricamente subordinada pode estar a reflectir um facto comunicativo impensável há anos: que, numa situação de fala inerentemente hierarquizada e desigual, como é um encontro formal num âmbito burocrático, o participante em princípio subordinado (por possuir menos conhecimentos sobre a linguagem técnica a utilizar, sobre a organização interna do acontecimento e sobre as metas interaccionais a cumprir) e passivo (por estarem as suas intervenções à mercê das intervenções dirigidas sobretudo perguntas do outro participante-líder da interacção) está, porém, em melhores condições de impor activamente, polo seu manejo adequado de duas línguas, o código-quadro de referência da conversa, e, assim, de controlar melhor certos aspectos da comunicação como a direcção dos fluxos de informação ou os turnos de fala.

 

6. Mas, poderiam o presidente do governo galego, o alcaide duma cidade importante ou o paciente de classe meia citados conferir a mesma força comunicativa às suas palavras ou manter o mesmo controlo interaccional nos contextos descritos se, em vez de galego padrão formal, empregassem um galego claramente dialectal, com um forte sotaque rural e/ou com certos traços estigmatizados socialmente como sesseio e a gheada? Evidentemente, não. Os linguistas cometem a miúdo o erro de infravalorizar e mesmo de ignorar a importância da fonética e a prosódia como «sinais de identidade» duma língua. Mas uma língua não é apenas palavras e estruturas: se existe o «carácter» duma língua, ele reside principalmente na manifestação desta, na fala, como complexo sistema de signos com significado social. Entre estes signos, os prosódicos e fonéticos possuem um valor simbólico e funcionalidade comunicativa fundamentais como traços de identificação social, em parte porque os conteúdos sociais e culturais que transmitem são processados polo ouvinte duma maneira mais internalizada e subconsciente do que os conteúdos dos signos léxicos ou gramaticais. Por exemplo, polo geral a entonação, acentuação de frase ou ritmo de fala não são nem considerados como possíveis causas de problemas e mesmo conflitos comunicativos (como com frequência o são), de maneira que avonda com que um falante produza enunciados gramaticalmente «em galego» para que o ouvinte interprete que aquele «fala galego».

     Tem, logo, muito sentido que desde os poderes manipuladores da fala se esteja a simplificar a realidade do galego nos âmbitos públicos (por exemplo, nos médios de comunicação); e que, no nosso modelo de padronização e normalização, se mantenha num claro esquecimento o cuidado da fonética e prosódia próprias; que se eliminem sistematicamente as oposições distintivas entre vogais abertas e cerradas; que não se preste a menor atenção à pronúncia velar do "m" final; que se espalhem com tanta rapidez a pronúncia despalatalizada do fonema /š/ já quase como um /s/, e um forte «yeísmo» espanholizante: que falar galego se limite, em definitivo, a uma tradução palavra por palavra (quase som por som) do espanhol. E isto acontece assim porque desde o poder interessa desimbolizar o tremendo significado social dos traços linguísticos próprios portadores de identidade. A coincidência não só linguística, senão discursiva entre galego padrão e espanhol padrão é abraiante. Claramente, está-se a procurar o modelo de normalização fora do galego (no espanhol padrão) e não nele próprio ou no sistema linguístico mais próximo, o português.

 

7. Precisamente porque conhecemos por triste experiência os efeitos sociais e individuais da dominação diglóssica sobre o galego, deveríamos estar alerta às novas formas de dominação das falas cultas e formais sobre as falas coloquiais e populares. A história da unificação e espalhamento das línguas romances (a história presente do galego) é a história da consolidação do poder das burguesias locais e das elites intelectuais urbanas. Sob a etiqueta de «normalização do galego» oculta-se a reprodução de formas de dominação por meio da fala que transcendem além dos limites daquelas entidades que os linguistas, políticos e «expertos» do saber nomeiam «línguas».

     Por isso não deve estranhar que o que caracteriza o processo de normalização do galego seja, na realidade, a inércia das forças sociais implicadas (tanto aquelas 'objectivamente' interessadas em potenciarem o processo como aquelas 'objectivamente' interessadas em o obstaculizarem): porque não há nada no espalhamento do galego padrão actual que ameace as estruturas de poder; é mais: é possível que nalgum senso as reforce. Por isso o galego, este galego padrão, começa a «ser útil».

 


Notas

1. Dentro deste paradigma (representado p. ex. polo trabalho de William Labov (1970), «The study of language in its social context», Studium Generale 23, pp. 30-87) poderiam se estudar fenómenos de «ordenada diversidade da fala» como a alternância contextual da chamada «segunda forma do artigo», das formas preposicionais para / pra / pa, do sesseio e a gheada, etc.

2. Para uma aproximação à sociolingüística da interacção v. p. ex. John J. Gumperz (1982), Discourse Strategies, Cambridge: Cambridge University Press; ou os trabalhos recolhidos em John J. Gumperz (ed.) (1982), Language and Social Identity, Cambridge: Cambridge University Press.

3. V. Francisco Rodríguez (1976), Conflicto lingüístico e ideoloxía en Galicia, Pontevedra: Xistral; ou Ramom L. Suevos (1983), Dialéctica do desenvolvimento: naçom, língua, classes sociais, A Corunha: AGAL.

4. Joshua A. Fishman (1971), «The relationship between micro- and macro-sociolinguistics in the study of who speaks what language to whom and when», em J. A. Fishman, R. L. Cooper, R. Ma et al. (eds.), Bilingualism in the Barrio, The Hague: Mouton, pp. 583-602.

5. Op. cit.

6. Lucy Mair (1965), An Introduction to Social Anthropology, Oxford: Oxford University Press. A tradução da citação é minha; corresponde à versão espanhola de Carlos Martín Ramírez, Introducción a la antropología social, Madrid: Alianza Ed., 8ª ed. (1986), p. 18.

7. Dentro das posturas mais radicais do reintegracionismo observa-se, por exemplo, um certo tom de imperialismo lingüístico (português; o imperialismo espanhol é o outro, o «isolacionismo» oficial).

8. Faro de Vigo (17-Maio-1987), p. 1. O sublinhado é meu.

9. Os conceitos de «acomodação lingüística» e o seu contrário, a «divergência», procedem da sócio-psicolingüística, e têm-se revelado como mui úteis para o estudo da comunicação. Ver L. M. Beebe e H. Giles (1984), «Speech-accommodation theories: a discussion in terms of second-language acquisition», International Journal of the Sociology of Language 15, pp. 5-32.


Última alteração: 19-06-2007

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